Escândalo · Patrimônio, presentes oficiais e conflitos de interesse
A casa na Ilha Comprida: a disputa entre Willer Tomaz e a empresa de Richarlison
Uma mansão avaliada em cerca de R$ 10 milhões na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), foi comprada em 2020 pela Sport 70, empresa ligada ao jogador Richarlison e a seu então empresário. Em 2022, uma ação de reintegração de posse movida pela empresa que constava como titular dos direitos de ocupação desde 1986 levou a casa para a WT Administração, de Willer Tomaz, advogado amigo do senador Flávio Bolsonaro. Segundo as reportagens, o terreno é da União; Tomaz diz ter comprado regularmente os direitos de ocupação e regularizado o registro na Secretaria do Patrimônio da União. Em 2025 o STJ manteve a decisão favorável à empresa de Tomaz. Flávio, que visitou a casa em 2020 e voltou lá com Tomaz em 2021, foi arrolado como testemunha pela empresa do jogador; nunca foi parte e diz não ter vínculo com o imóvel. Em 2026, Richarlison voltou a cobrar o caso em público e diz não ter recuperado o que pagou. É uma disputa cível; ninguém foi acusado de crime por ela.
O caso num quadro
Sem condenação criminal Disputa cível pela posse de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, entre a empresa de Willer Tomaz e a de Richarlison; o STJ manteve em 2025 a decisão favorável à empresa de Tomaz. Flávio foi arrolado como testemunha e nunca foi parte.
Pessoas e instituições envolvidas


PPBPPPSCPSLsem partidoPATRIOTAPL
Contexto
O imóvel não é uma ilha inteira: as fontes descrevem uma mansão situada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, com praia descrita como privativa e cachoeira; Richarlison se refere a ela como “minha ilha”. Segundo as reportagens, terrenos em ilhas pertencem à União, e particulares têm só direitos de ocupação; por isso a disputa opôs a propriedade registrada em nome da empresa do jogador e a posse (direitos de ocupação) reivindicada pela antiga titular e depois pela empresa de Tomaz. É um processo cível; não há acusação criminal contra nenhuma das partes nas fontes lidas. Ser arrolado como testemunha não faz de Flávio Bolsonaro parte do processo. O interesse público está na relação documentada entre o senador e o advogado e no uso de um imóvel em terra da União. Fontes de linhas editoriais distintas: ICL Notícias / De Olho nos Ruralistas e Jornal do Brasil (que reproduziu texto do Brasil 247) têm linha crítica a Flávio Bolsonaro; Jovem Pan tem linha alinhada à direita; Poder360, Metrópoles, Congresso em Foco, InfoMoney, A Gazeta, O Povo, Bahia Notícias e O Fator são generalistas.
Cronologia
Flávio Bolsonaro, a mulher e o então ministro Tarcísio de Freitas, levados a Angra pelo ex-senador Wilder Morais, conhecem a casa durante viagem para o início das obras do aeroporto da cidade, segundo a coluna de Guilherme Amado (Metrópoles), reproduzida pelo Jornal do Brasil. O então ocupante disse que a casa já estava sendo vendida à empresa de Richarlison. Alegação atribuída
- Jornal do Brasilfichaparágrafos “Flávio conheceu a mansão no último fim de semana de julho de 2020” e “De volta àquele dia 26 de julho de 2020”
- A Gazetafichaseção “INTERESSE DE FLÁVIO NO IMÓVEL”
Flávio volta ao local de lancha, acompanhado de Willer Tomaz, e publica no Instagram imagens aéreas da casa. Segundo o relato do então ocupante ao Metrópoles, Tomaz perguntou se a venda poderia ser desfeita e ouviu que o negócio estava fechado. Alegação atribuída
- Jornal do Brasilfichatrecho “Cinco meses se passaram e, em 1º de janeiro de 2021”, citação do relato do então ocupante e “o senador fez imagens aéreas do local e publicou-as em seu Instagram”
- Poder360fichatrecho “Em janeiro de 2021, Flávio voltou ao local. Dessa vez acompanhado do advogado Willer Tomaz”
O juiz da 2ª Vara Cível de Angra concede liminar de reintegração de posse; oficial de Justiça e policiais retiram da casa a moradora ligada ao empresário do jogador. Dois dias depois, no plantão judicial, a empresa de Richarlison reverte a decisão; Tomaz recorre ao TJ-RJ e obtém nova liminar. Decisão judicial
- Jornal do Brasilfichatrechos “cumprir uma decisão de reintegração de posse, dada pelo juiz Ivan Pereira” e “Dois dias depois, no domingo, os advogados da empresa de Richarlison conseguiram no plantão judicial reverter a primeira decisão”
- Poder360fichatrecho “O juiz Ivan Pereira, da 2ª Vara Cível da Comarca de Angra, entendeu que a propriedade era da M Locadora”
A M Locadora, que constava como titular dos direitos de ocupação desde 1986, entra na 2ª Vara Cível de Angra dos Reis com ação de reintegração de posse contra a Sport 70 e outra empresa, segundo nota de Willer Tomaz reproduzida por A Gazeta. O advogado da autora era o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, que segundo O Povo e o Congresso em Foco era sócio de Tomaz. Alegação atribuída
- A Gazetafichaíntegra da nota de Willer Tomaz e WT Administração: trecho “em curso na 2ª Vara Cível de Angra dos Reis (RJ) desde 06.05.2022”
- O Povofichatrecho “O advogado da M Locadora é o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão , que era sócio de Willer Tomaz”
- Congresso em Focofichatrecho “o advogado da M Locadora era sócio de Willer Tomaz”
Segundo o Poder360, Tomaz regulariza o cadastro do imóvel na Secretaria do Patrimônio da União e depois obtém a Certidão de Autorização para Transferência dos direitos da M Locadora para a WT Administração. Ele diz que a WT pagou R$ 2 milhões em pendências fiscais e administrativas da M Locadora, num “contrato de sub-rogação”. Alegação atribuída
O desembargador Adriano Guimarães, do TJ-RJ, dá nova liminar a favor de Tomaz, que passa a ficar com a casa; aguardava-se decisão da 8ª Câmara Cível, segundo o Metrópoles reproduzido pelo Jornal do Brasil. Decisão judicial
- Jornal do Brasilfichatrecho “A decisão mais recente ocorreu em 5 de agosto, quando o desembargador Adriano Guimarães deu uma nova decisão liminar”
- A Gazetafichatrecho “A última decisão, proferida no dia 5 de agosto”
A coluna de Guilherme Amado (Metrópoles) revela o caso e informa que Flávio foi arrolado como testemunha a pedido dos advogados do lado de Richarlison, para relatar a visita à casa e mostrar que ela não era ocupada por invasores, como alegava Tomaz. Fato documentado
- Jornal do Brasilfichatrecho “Flávio Bolsonaro foi arrolado como testemunha a pedido dos advogados do empresário de Richarlison”
- A Gazetafichatrecho “deve ser ouvido a pedido dos advogados de Richarlison”
Depois da repercussão durante a Copa do Mundo, Flávio diz no Twitter que é “Fake News” estar em litígio com Richarlison e que foi arrolado como testemunha “sem eu ter absolutamente nada a ver com o tema”. Declaração registrada
O STJ mantém o entendimento do TJ-RJ favorável à empresa de Tomaz. O relator, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, concluiu que o recurso da empresa de Richarlison exigiria reexaminar provas e cláusulas contratuais, o que não cabe em recurso especial (Súmulas 5 e 7). As fontes divergem sobre o mês (maio ou junho). Segundo a Bahia Notícias, as ações foram encerradas após desistência dos autores. Decisão judicial
- InfoMoneyfichaseção “Decisão do STJ” e citação do ministro
- Congresso em Focofichatrecho “Em maio de 2025, o Superior Tribunal de Justiça manteve o entendimento”
- Jovem Panfichatrecho “Em junho de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ratificou a decisão”
- Bahia Notíciasfichatrecho “as ações foram encerradas após a desistência dos autores”
Richarlison comenta um vídeo de uma advogada sobre o caso: “Realmente gastei em torno de 10 milhões lá. E simplesmente me tomaram. E estou até hoje sem receber a minha grana.” A advogada depois retirou o vídeo e publicou retratação, dizendo que o processo foi encerrado em 2025. Declaração registrada
- Jovem Panfichaparágrafos de abertura
- Congresso em Focofichacitação do jogador e seção “Advogada faz retratação”
Richarlison reposta um vídeo de Flávio com imagens aéreas da casa e escreve: “Lugar bonito né? Pois é. Me tomaram”, marcando o senador. Declaração registrada
- Metrópolesfichaparágrafos de abertura
Tomaz apresenta ao STF uma interpelação contra o deputado Rogério Correia (PT-MG), relator ministro Luiz Fux, por publicação intitulada “Provas: como Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz pegaram a mansão de Richarlison?”. Segundo a interpelação, o deputado afirmou que documentos obtidos por LAI indicariam o uso da Superintendência do Patrimônio da União no Rio para viabilizar a transferência. Fato documentado
Em comentário num post da influenciadora Juliette em que Flávio falava de Nossa Senhora Aparecida, Richarlison pergunta: “@flaviobolsonaro e a minha ilha?” (noticiado em 13/10/2026). Declaração registrada
- Congresso em Focofichaparágrafos de abertura
Em vídeo, Richarlison diz que não quer o imóvel de volta, só o dinheiro investido: “Eu nem quero que ela venha de volta, não, mano. Só quero o que é meu”. Declaração registrada
- Bahia Notíciasfichatrecho “Neste domingo (11), em vídeo publicado nas redes sociais” e citação do jogador
O que está documentado
- Alegação atribuída · descrição de reportagens contestada por uma das partes; imóvel não vistoriado
A casa disputada fica na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, e é descrita como tendo 11 suítes, praia privativa, cachoeira, piscina, quadra de tênis e heliponto. Tomaz contesta essa descrição e diz que o imóvel não tem 11 suítes, piscina ou quadra.
- Jornal do Brasilfichatrecho “A casa tem 11 suítes, praia privativa, cachoeira, piscina, quadra de tênis e heliponto”
- A Gazetafichatrecho “que NÃO tem 11 suítes, piscina ou quadra, ao contrário do afirmado”
- Alegação atribuída · nota de uma das partes e relato de reportagens; registros da SPU não lidos
Segundo as próprias partes e reportagens, o terreno pertence à União: “A dona é a União”, diz a nota de Tomaz, para quem particulares só podem ter direitos de ocupação. Tomaz diz que a WT comprou esses direitos da antiga titular, com escritura pública e autorização da União, e atualizou o registro na SPU.
- Fato documentado · cruzamento de reportagens; autos não lidos
Flávio Bolsonaro foi arrolado como testemunha pela empresa ligada a Richarlison, não por Tomaz. Ele nunca foi parte no processo; as fontes lidas não confirmam se chegou a depor (uma delas, o InfoMoney, diz que sim, sem detalhar).
- Alegação atribuída · relato de segunda mão; reportagem original não lida
Segundo o Metrópoles, citado pelo Congresso em Foco, uma festa familiar de Flávio Bolsonaro ocorreu em imóvel de Tomaz em Angra dos Reis. As fontes lidas não informam a data nem se é a mesma casa da Ilha Comprida.
- Congresso em Focofichatrecho “uma festa familiar do senador ocorreu em imóvel de Willer em Angra dos Reis”
Alegações e seus autores
Richarlison (em redes sociais, segundo Congresso em Foco e Bahia Notícias), 11 out. 2026: Diz ter gasto cerca de R$ 10 milhões, que a casa lhe foi “tomada” e que não recebeu o dinheiro de volta: “A ilha era minha, pô. Conquistei com meu dinheiro, trabalhando honesto.”
- Bahia Notíciasfichacitações do jogador
- Congresso em Focofichacitação do comentário de julho de 2026
Deputado Rogério Correia (segundo a interpelação de Tomaz, relatada por O Fator), ago. 2026: Teria afirmado que Richarlison foi “roubado” e que documentos obtidos por LAI indicariam o uso da Superintendência do Patrimônio da União no Rio para viabilizar a transferência. Tomaz contesta no STF.
Respostas dos envolvidos
- Manifestação da defesa
Willer Tomaz, 28 set. 2022: Em nota, disse que a WT “adquiriu regularmente os direitos de ocupação” da antiga titular, que detinha a outorga da União desde 1986; que a empresa do jogador nunca provou ter comprado esses direitos nem obtido autorização da União; e que a reportagem tinha “narrativas fáticas inverídicas”.
- Resposta pública
Willer Tomaz, 25 nov. 2022: Disse ter gasto cerca de R$ 5 milhões para regularizar o terreno, negou ter conhecido o imóvel por meio de Flávio e chamou os ocupantes de “invasores”, que teriam criado “uma narrativa” para o “coagir e chantagear”.
- Manifestação da defesa
Willer Tomaz, ago. 2026: Na interpelação ao STF, anexou documentos que, segundo ele, mostram que a aquisição foi reconhecida como regular pela Justiça e disse que um inquérito sobre suposto estelionato ligado ao negócio foi arquivado a pedido do Ministério Público.
- Resposta pública
Flávio Bolsonaro, 28 set. 2022: Ao Metrópoles, disse não ter relação com o imóvel ou com o processo e que “estão usando a imprensa porque é véspera de eleição, e a discussão do imóvel está na Justiça”.
- A Gazetafichatrecho com a resposta de Flávio
- Jornal do Brasilfichatrecho “Flávio Bolsonaro disse não ter relação com o imóvel ou com o processo”
- Resposta pública
Flávio Bolsonaro, 1 jul. 2026: Em nota, a assessoria disse que ele “nunca foi parte da ação judicial”, não comprou, vendeu nem intermediou o imóvel, foi arrolado “apenas como testemunha” pela empresa do atleta e que “O processo entre proprietário e possuidor foi encerrado na Justiça”.
Consequências comprovadas
- Alegação atribuída
A empresa de Tomaz ficou com a posse da casa; segundo Richarlison, ele não recuperou o valor investido.
- Congresso em Focofichatrecho “O processo teve desfecho favorável à empresa vinculada ao advogado”
- Bahia Notíciasfichacitações do jogador
Limitações e questões em aberto
- Nenhum auto, decisão (2ª Vara Cível de Angra, TJ-RJ, STJ), matrícula ou registro da SPU foi lido; o número do processo no STJ não consta das fontes lidas.
- As fontes divergem sobre o mês da decisão do STJ (maio de 2025 no Congresso em Foco; junho de 2025 na Jovem Pan e na Bahia Notícias).
- Não está confirmado se Flávio Bolsonaro chegou a depor: a maioria das fontes diz só que foi arrolado; o InfoMoney diz que prestou depoimento.
- A festa familiar de Flávio em imóvel de Tomaz em Angra vem de menção de segunda mão ao Metrópoles; data, local exato e se é a mesma casa não foram confirmados.
- O episódio da retirada da moradora (maio de 2022) tem versões opostas; detalhes pessoais dela não são registrados aqui por se tratar de pessoa privada.
- O ICL Notícias faz uma afirmação sobre o antigo vendedor que não foi confirmada em outra fonte e não é reproduzida, por se tratar de pessoa privada.
- As reportagens originais de Guilherme Amado (Metrópoles, 28/09/2022) e a do Metrópoles sobre a festa não foram lidas; o conteúdo vem de veículos que as reproduziram.
- A afirmação do deputado Rogério Correia sobre documentos da SPU obtidos por LAI vem da interpelação de Tomaz, relatada por um veículo pequeno; a publicação e os documentos não foram lidos.
Pendências de apuração
- Ler a decisão do STJ (relator Ricardo Villas Bôas Cueva) e o acórdão do TJ-RJ e preservá-los como fonte primária.
- Pedir à SPU (LAI) o histórico do registro do imóvel e a autorização de transferência, sem publicar dados de pessoas privadas.
- Ler a coluna original de Guilherme Amado (Metrópoles, 28/09/2022) e a reportagem do Metrópoles sobre a festa em Angra.
- Confirmar o andamento da interpelação de Tomaz contra Rogério Correia no STF.
Histórico de atualizações
- — Dossiê criado a pedido do responsável. autos não lidos;