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Coberturas vacinais do calendário infantil no Brasil, 2015–2022
As seis coberturas analisadas ficaram, em média, abaixo em 2019–2022 do que em 2015–2018. Cinco delas tiveram o menor valor da série em 2021, entre 71% e 75%. A exceção foi a Penta, cujo mínimo veio em 2019 (70,76%), ano em que o Ministério da Saúde informou o desabastecimento parcial da vacina. Em algumas vacinas a queda começou antes de 2019. Em 2022 houve recuperação parcial, mais forte na BCG (90,09%). Os dados não permitem atribuir a queda a uma decisão específica: a pandemia, o desabastecimento e problemas de registro aparecem juntos, e a única análise lida, um estudo ecológico, não demonstra causa. A série do TabNet termina em 2022; a partir de 2023 o Ministério mudou o método de cálculo.
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Pergunta
Como variaram as coberturas vacinais de seis vacinas do calendário infantil (BCG, Penta, Poliomielite, Tríplice viral D1, Pneumocócica e Rotavírus), segundo o SI-PNI, em 2019–2022 em relação a 2015–2018?
- BCG
- Penta (DTP+HB+Hib), 3ª dose
- Poliomielite
- Tríplice viral, 1ª dose
- Pneumocócica
- Rotavírus humano
- período 2019–2022
Fonte: Ministério da Saúde, SI-PNI, via TabNet/DataSUS ("Imunizações - Cobertura - Brasil"), consulta de 14/10/2026; dados atualizados até maio de 2023. Unidade: % da população-alvo (nascidos vivos do SINASC). Período: 2015–2022; a área destacada marca 2019–2022. Todos os valores são observados. Cobertura calculada pelo "tipo de dose", método usado até 2022 e substituído a partir de 2023 (Nota Técnica nº 84/2026-DPNI): não emende esta série com dados de 2023 em diante. Valores acima de 100% (BCG em 2015) refletem limitações do registro.
Tabela com os valores (8 períodos)
| Período | BCG | Penta (DTP+HB+Hib), 3ª dose | Poliomielite | Tríplice viral, 1ª dose | Pneumocócica | Rotavírus humano |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2015 | 105,08 | 96,3 | 98,29 | 96,07 | 94,23 | 95,35 |
| 2016 | 95,55 | 89,27 | 84,43 | 95,41 | 95 | 88,98 |
| 2017 | 97,98 | 84,24 | 84,74 | 86,24 | 92,15 | 85,12 |
| 2018 | 99,72 | 88,49 | 89,54 | 92,61 | 95,25 | 91,33 |
| 2019 | 86,67 | 70,76 | 84,19 | 93,12 | 89,07 | 85,4 |
| 2020 | 77,14 | 77,86 | 76,79 | 80,88 | 82,04 | 77,94 |
| 2021 | 74,97 | 71,53 | 71,04 | 74,94 | 74,84 | 71,8 |
| 2022 | 90,09 | 77,24 | 77,2 | 80,7 | 81,51 | 76,61 |
O que os dados mostram
- Fato documentado
Média das coberturas em 2015–2018 e em 2019–2022: BCG 99,58% → 82,22%; Penta 89,58% → 74,35%; Poliomielite 89,25% → 77,31%; Tríplice viral D1 92,58% → 82,41%; Pneumocócica 94,16% → 81,87%; Rotavírus 90,20% → 77,94%. As seis médias foram menores no segundo período.
- primáriaTabNet/DataSUSfichatabela por ano, linhas 2015–2022 (médias simples calculadas a partir do CSV)
- Fato documentado
Cinco das seis vacinas tiveram em 2021 o menor valor da série 2015–2022: BCG 74,97%, Poliomielite 71,04%, Tríplice viral D1 74,94%, Pneumocócica 74,84% e Rotavírus 71,80%. A Penta teve o mínimo em 2019 (70,76%).
- primáriaTabNet/DataSUSfichatabela por ano, linhas 2019 e 2021
- Fato documentado
A queda da Penta para 70,76% em 2019, quando as outras vacinas ainda estavam entre 84% e 93%, coincide no tempo com a suspensão parcial do abastecimento informada pelo Ministério da Saúde a partir de julho de 2019.
- primáriaTabNet/DataSUSfichatabela por ano, linha 2019
- primáriasaude.gov.br (portal antigo)fichaseção "Abastecimento"
- Fato documentado
Em 2022 houve recuperação em relação a 2021 nas seis vacinas, mais forte na BCG (74,97% → 90,09%). As outras cinco ficaram entre 76,61% e 81,51%, abaixo de todos os anos de 2015 a 2018.
- primáriaTabNet/DataSUSfichatabela por ano, linhas 2015–2018, 2021 e 2022
- Fato documentado
Segundo o Ministério da Saúde, o método usado até 2022 (por "tipo de dose") podia subestimar ou superestimar coberturas por erros de registro. A partir de 2023 o cálculo passou a ser feito por indivíduo, com dados da RNDS. A série de 2015–2022 é comparável entre si quanto ao método, mas não com os dados de 2023 em diante.
- primáriagov.br/saude — notas técnicasfichaitens 3.1–3.4 e 4.1–4.5
- Fato documentado
Pelas notas técnicas do DataSUS, a cobertura é o número de doses aplicadas da dose indicada, dividido pela população-alvo e multiplicado por 100. Desde 2006, a população-alvo de menores de 1 ano e de 1 ano são os nascidos vivos do SINASC.
- primáriaTabNet/DataSUSfichaparágrafo "A fórmula de cálculo da cobertura"; seção "População" ("A partir de 2006, para todos os estados")
- Análise editorial
Análise editorial: a queda coincide no tempo com três fatores documentados ou plausíveis: o desabastecimento da Penta em 2019, a pandemia em 2020–2021 e as fragilidades de registro que o próprio Ministério reconhece. Com os dados reunidos aqui, não dá para separar o peso de cada um nem atribuir a queda a uma decisão do governo federal.
Sem evidência vinculada — não publicar.
Contexto
Antes de 2019: Em 2015, as seis coberturas estavam acima de 94%. Em algumas vacinas, a queda começou antes de 2019. A Poliomielite caiu de 98,29% (2015) para 84,43% (2016), e a Penta de 96,30% para 84,24% (2017). Em 2018 houve recuperação parcial. Essas variações de 2016–2018 ocorreram em governos anteriores e não são atribuídas ao período 2019–2022.
Depois de 2022: A base do TabNet termina em 2022. Os dados de 2023 em diante estão nos painéis do Ministério da Saúde, calculados por indivíduo, um método diferente segundo a Nota Técnica nº 84/2026. Por isso não foram incluídos nem comparados aqui. Em 2022, ainda dentro da série, houve recuperação parcial: BCG 90,09%, as demais entre 76,61% e 81,51%.
Decisões e fatores relacionados
- Executivo federal
Em página publicada em 11/09/2019 e atualizada em 20/09/2019, o Ministério da Saúde informou que o abastecimento da pentavalente estava "parcialmente suspenso desde julho de 2019", porque os lotes foram reprovados no teste de qualidade do INCQS e na análise da Anvisa. O país demandava 800 mil doses mensais. O ministério pediu reposição à Opas e previa busca ativa das crianças que completaram 2, 4 ou 6 meses entre agosto e novembro. A página não diz quantas crianças deixaram de ser vacinadas, e a busca ativa posterior não foi verificada.
- primáriasaude.gov.br (portal antigo)fichaseção "Abastecimento" ("Como está o abastecimento da pentavalente no Brasil?")
- Fator externo
Pandemia de covid-19 a partir de 2020. Um estudo ecológico publicado em 2022 (dez vacinas de menores de 1 ano, 2013–2020) registrou em 2020 o menor valor histórico em nove delas. Os autores disseram não poder afirmar que a pandemia e as medidas de distanciamento foram as causas da queda, e observaram que ela já vinha de antes.
- Ciência & Saúde Coletiva (SciELO)ficharesumo (objetivo, método, resultados e conclusão)
Associação e causalidade
O que há é associação temporal: as coberturas caíram em 2019–2022, e no mesmo período houve desabastecimento da Penta (2019) e a pandemia (2020–2021). Não foi lido nenhum estudo que estime, com método de identificação causal, quanto da queda se deve a decisões do governo federal, à pandemia, à hesitação vacinal ou a falhas de registro. O único estudo lido (Procianoy et al., 2022, ecológico) diz expressamente não poder afirmar causalidade. Ausência de evidência causal não autoriza concluir que as decisões federais não tiveram impacto. A redução da Penta em 2019 tem um mecanismo direto e documentado (falta de vacina), mas o número de crianças afetadas não foi quantificado.
Outras explicações possíveis
- Pandemia: suspensão de serviços, medo de ir a unidades de saúde e distanciamento (fator externo, com associação registrada em estudo ecológico, sem causalidade demonstrada).
- Subregistro e mudanças nos sistemas de informação (registro nominal, e-SUS APS, RNDS): podem reduzir as coberturas registradas sem redução proporcional da vacinação real. O Ministério reconhece fragilidades no método até 2022, mas não foi lido documento que quantifique o efeito em 2019–2022.
- Tendência anterior: em várias vacinas a queda começou em 2016–2017.
- Hesitação vacinal e desinformação: hipótese frequente na literatura; não examinada aqui com estudo.
- Denominador: a população-alvo vem do SINASC e muda com a natalidade; erros de denominador afetam a cobertura.
Método
Fontes e séries
Ministério da Saúde, Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), tabulado no TabNet/DataSUS, base "Imunizações - Cobertura - Brasil" (bd_pni/cpnibr.def). Conteúdo: cobertura vacinal (%) por imunobiológico segundo ano, Brasil, 2015–2022: BCG; Penta (DTP+HB+Hib); Poliomielite; Tríplice viral D1; Pneumocócica; Rotavírus humano. A série mede doses registradas da dose indicada do esquema em relação à população-alvo. Não mede crianças vacinadas individualmente, atraso vacinal nem doses aplicadas e não registradas.
Metodologia
Cobertura = doses aplicadas da dose indicada (3ª dose da Penta e da Poliomielite, dose única da BCG, 1ª dose da Tríplice viral etc.) ÷ população-alvo × 100. Desde 2006, a população-alvo de menores de 1 ano e de 1 ano são os nascidos vivos do SINASC. O cálculo é do próprio TabNet; o script só lê o CSV que o TabNet oferece e descarta a linha "Total", como manda a nota da página. A comparação usa médias simples de 2015–2018 e 2019–2022 e os valores anuais. Não foi feito ajuste por estado ou município.
Revisões e quebras da série
1) Mudança de método em 2023: a Nota Técnica nº 84/2026-DPNI/SVSA/MS informa que, de 1994 a 2022, as coberturas eram calculadas pelo "tipo de dose" do registro. Doses registradas com erro nessa variável ficavam fora do numerador e podiam subestimar a cobertura; doses já excluídas podiam voltar e superestimá-la. A nota diz que essas falhas explicam coberturas acima de 100% e discrepâncias entre vacinas aplicadas juntas. A partir de 2023, a cobertura passou a ser calculada por indivíduo (CNS ou CPF), com registros da RNDS. Por isso esta série vai só até 2022, e valores de 2023 em diante não devem ser emendados a ela. 2) Mudança de sistema: as notas técnicas do TabNet descrevem a origem dos dados no antigo sistema API, de boletins agregados de doses. Elas não tratam da passagem para o registro nominal nem dos anos 2020–2022. Para esses anos, a mudança nos sistemas de registro é uma explicação alternativa plausível, mas não está quantificada em documento oficial lido (ver lacunas). 3) Atualização: a página do TabNet informa "Última atualização dos dados: maio de 2023". Valores podem diferir dos de painéis posteriores. 4) BCG acima de 100% em 2015 (105,08%) é um exemplo da inconsistência descrita na Nota Técnica nº 84/2026.
Valores nominais e reais
Não se aplica: a série é uma proporção (%) e não tem valor monetário.
Limitações
- Série nacional: esconde diferenças entre estados e municípios, que executam a vacinação.
- A série termina em 2022 no TabNet; 2023 em diante está noutra metodologia e não foi usado.
- Dados atualizados até maio de 2023; podem diferir de versões posteriores.
- Cobertura de doses registradas, não de crianças vacinadas.
- Os valores dependem do registro feito pelos municípios; mudanças nos sistemas de registro podem afetar a comparabilidade entre anos.
- O estudo ecológico citado foi lido só no resumo; o PDF não pôde ser aberto.
Estudos relacionados
Lacunas
- Documento oficial que quantifique o efeito da migração dos sistemas de registro (SI-PNI nominal, e-SUS APS, RNDS) sobre as coberturas de 2019–2022.
- Coberturas de 2023 em diante, recalculadas por indivíduo, e eventual série retroativa pelo novo método: não usadas.
- Estudo com desenho causal sobre as causas da queda das coberturas no Brasil.
- Quantas crianças ficaram sem Penta em 2019 e se a busca ativa anunciada ocorreu.
Pendências (só na prévia)
- Ler o PDF do estudo Procianoy et al. (2022) e resolver a divergência 75,07% × 79,07% entre as versões.
- Localizar atos do Ministério da Saúde sobre campanhas e estratégias de vacinação de rotina em 2019–2022 (ex.: campanhas de multivacinação) para a seção de políticas.
- Abrir os painéis de cobertura do Ministério (infoms.saude.gov.br) para registrar, como contexto, os valores de 2023 em diante, com a ressalva de método.