Estudo de impacto · Pandemia, saúde pública e vacinação · vacinação · saúde
Estimativa por modelo: mortes e internações de idosos evitadas pela vacinação contra covid-19 em 2021 e cenários hipotéticos de início 4 e 8 semanas antes
Leonardo Souto Ferreira e outros nove autores (2022). Artigo revisado por pares.
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Modelagem ou simulação. Estima o que aconteceria em outro cenário, sob hipóteses e parâmetros do modelo. Cenário estimado não é efeito demonstrado nem valor observado.
O que o estudo examina
- Decisão ou política
- Calendário de início da vacinação contra covid-19 no Brasil (primeira dose em 17/01/2021 e campanha nacional a partir de 18/01/2021, segundo o artigo), comparado com cenários hipotéticos em que a mesma série de cobertura começa 4 ou 8 semanas antes. O estudo não examina contratos, ofertas ou datas de compra de vacinas: as causas do calendário real ficam fora dele.
- Resultado estudado
- Internações e óbitos por SRAG associada à covid-19 em pessoas de 60 anos ou mais (60–69, 70–79, 80+), acumulados de 01/01/2021 a 29/08/2021.
- Período
- Ajuste do modelo de 01/03/2020 a 29/08/2021; efeitos somados de 01/01/2021 a 29/08/2021.
- População ou unidade
- Pessoas de 60 anos ou mais, Brasil (modelos por unidade da federação somados ao total nacional).
Método
Modelo linear bayesiano (INLA) por estado e faixa etária: internações e óbitos semanais dos idosos explicados pelos casos na faixa de 20–29 anos (grupo de referência, ainda não vacinado) e pela cobertura de segunda dose de três vacinas, com efeito aleatório temporal AR(1). Contrafactuais: cobertura zero (sem vacinação) e série de cobertura deslocada 4 ou 8 semanas para trás, com o mesmo ritmo e a mesma quantidade de doses. Dados: SIVEP-Gripe (extração de 18/10/2021) e SI-PNI (06/11/2021). Não há estratégia de identificação quase-experimental: tanto as mortes evitadas pela vacinação realizada quanto as dos cenários antecipados são projeções do modelo sob as hipóteses declaradas.
Modelagem: o que foi observado e o que foi estimado
- Resultados observados
- Séries semanais de internações e óbitos por SRAG associada à covid-19 por UF e faixa etária (SIVEP-Gripe, extração de 18/10/2021) e cobertura de 2ª dose por vacina (SI-PNI, extração de 06/11/2021). Observado também, segundo os autores: a cobertura de 2ª dose dos maiores de 80 anos chegou a cerca de 50% só no fim de março de 2021, e a de 60–69 anos passou de 50% só no fim do 1º semestre; os maiores de 60 anos responderam por 46,4% das internações e 67,6% dos óbitos do período (Discussion).
- Cenários estimados pelo modelo
- (1) Sem vacinação (cobertura zerada): a diferença em relação à trajetória com a cobertura observada dá 58.644 óbitos e 167.914 internações evitados entre 01/01 e 29/08/2021. (2) Mesma série de cobertura deslocada 4 semanas para trás: 81.569 óbitos e 220.676 internações evitados. (3) Deslocada 8 semanas: 105.532 óbitos e 272.421 internações evitados. Os cerca de 47 mil óbitos adicionais evitáveis são a diferença entre os cenários (3) e o realizado, ambos estimados.
- Hipóteses
- Sem vacinação, internações e óbitos dos idosos seriam proporcionais aos do grupo de 20–29 anos (referência ainda não vacinado), com dependência temporal AR(1). A vacina reduz o risco relativo linearmente com a cobertura de 2ª dose de cada vacina (AstraZeneca, CoronaVac, Pfizer; Janssen omitida por poucas doses). Só efeitos diretos nos maiores de 60 anos, sem efeito sobre transmissão, imunidade coletiva ou sobrecarga hospitalar. Exposição constante em cada faixa etária. Nos cenários antecipados, as mesmas doses, no mesmo ritmo, estariam disponíveis 4 ou 8 semanas antes.
- Parâmetros
- Estimados por inferência bayesiana (INLA), separadamente para cada UF e faixa etária (60–69, 70–79, 80+), com dados de 01/03/2020 a 29/08/2021: intercepto, coeficiente do grupo de referência, um coeficiente de cobertura por vacina, desvio-padrão e parâmetros do efeito AR(1), com priors pouco informativos declarados (Methods, equações 3 e 4). Assumidos: grupo de referência de 20–29 anos, 2ª dose contada 14 dias após a aplicação, deslocamentos de 4 e 8 semanas e mesma quantidade de doses.
- Validação
- Ajuste dentro da amostra: segundo os autores, as curvas observada e estimada sem vacinação coincidem até maio (60–79 anos) e março–abril (80+), quando a cobertura ainda era baixa, e a semelhança entre modelo e dados aparece na Fig. S5. Efeito aleatório escolhido por WAIC (Fig. S4); sensibilidade ao grupo de referência nas Tabelas S2 e S3. O material suplementar não foi lido. Não há validação fora da amostra, e os cenários antecipados não têm contrapartida observável.
- Incerteza
- Intervalos de credibilidade de 95% das trajetórias posteriores (1.000 amostras por UF e faixa, somadas ao total nacional), listados em "incerteza". Não incluem a incerteza estrutural do modelo nem a da hipótese de doses disponíveis antes.
- Limites de extrapolação
- Vale para maiores de 60 anos, de janeiro a agosto de 2021, e para antecipação com o mesmo ritmo e as mesmas doses. Não diz se as doses poderiam estar disponíveis antes nem qual decisão (compra, contrato, resposta a ofertas) teria permitido isso; não estima o efeito de decisões de compra; não se estende a outras faixas, a efeitos indiretos nem a 2022. Os autores chamam os cenários de "not unrealistic" e as estimativas de limite inferior, mas isso é argumento, não teste.
Estimativa e incerteza
Todos os números são cenários estimados pelo modelo, não contagens observadas. Vacinação realizada comparada com o cenário sem vacina: 58.644 óbitos e 167.914 internações evitados entre idosos. Cenário de início 4 semanas antes: 81.569 óbitos e 220.676 internações evitados. Cenário de 8 semanas antes: 105.532 óbitos e 272.421 internações evitados. Os autores resumem que cerca de 47 mil vidas a mais "could have been saved" com início 8 semanas antes, o equivalente a cerca de 20% dos óbitos reais de maiores de 60 anos no período. Esses 47 mil são a diferença entre dois cenários do modelo, sob a hipótese de que as mesmas doses estariam disponíveis antes; não são efeito demonstrado do calendário real.
Limitações
- Sentido registrado como "nao_se_aplica": a decisão examinada é o calendário de início, e a comparação com início antecipado existe só entre cenários do modelo. O cenário de vacinação realizada aparece favorável (mortes evitadas), mas também é estimativa contrafactual.
- Os cenários antecipados supõem que as mesmas doses estariam disponíveis 4 ou 8 semanas antes; o estudo não diz se isso era possível nem qual decisão teria permitido.
- Só efeitos diretos em maiores de 60 anos; sem imunidade de rebanho e sem efeito sobre o sistema de saúde, o que, segundo os autores, subestima os efeitos.
- Exposição suposta constante em cada faixa etária; mudanças de mobilidade entre faixas podem enviesar para cima ou para baixo (os autores discutem os dois sentidos).
- Modelo estatístico observacional usado para projetar cenários, sem grupo de comparação quase-experimental; por isso a ficha usa modelagem_simulacao, não estudo causal. Os cerca de 47 mil óbitos são cenário, não efeito demonstrado do calendário real nem de uma decisão de compra.
Evidências divergentes
Santos et al. (2022) estimam 303.129 mortes evitadas pela vacinação no primeiro ano da campanha (17/01/2021 a 31/01/2022), em adultos de 20 anos ou mais, com outro método (diferença de taxas entre vacinados e não vacinados). Período, população e método diferem: os números não são comparáveis diretamente e não devem ser somados nem subtraídos.
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaSummary (Findings); Results
Referência e trechos
Ferreira LS, Marquitti FMD, Paixão da Silva RL, Borges ME, Gomes MFC, Cruz OG, Kraenkel RA, Coutinho RM, Prado PI, Bastos LS. "Estimating the impact of implementation and timing of the COVID-19 vaccination programme in Brazil: a counterfactual analysis". The Lancet Regional Health – Americas, 17, 100397, 2023 (online em 21/11/2022). DOI 10.1016/j.lana.2022.100397 — acessar
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9676113)fichaSummary (Findings): "an additional 47 thousand lives could have been saved had the Brazilian government started the vaccination programme earlier"
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9676113)fichaMethods (modelo INLA; cenários de cobertura zero e de 4 e 8 semanas antes, "considering the same amount of vaccines")
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9676113)fichaResults e Table 1 (reduções estimadas com IC 95% por faixa e cenário)
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9676113)fichaDiscussion (efeitos só diretos; ritmo igual nos cenários; exposição constante; "at least 20%" dos óbitos reais)
Indicadores relacionados
Lacunas
- Nenhum estudo lido nesta frente estima o efeito de decisões específicas de compra (datas de contratos ou respostas a ofertas de fabricantes) sobre o calendário de vacinação. Ligar este cenário a uma decisão de compra exigiria documento que mostre que as doses estariam disponíveis 4 ou 8 semanas antes.
- Victora et al. (2021, EClinicalMedicine), citado pelo artigo, estima o impacto inicial da vacinação sobre mortes de idosos: não lido.