Checagem · Democracia, eleições e instituições · Desinformação e ataques à imprensa
Em reunião com embaixadores, em julho de 2022, Jair Bolsonaro disse que hackers passaram "8 meses" dentro dos computadores do TSE; as fontes descrevem um ataque em abril de 2018 detectado pelo próprio tribunal e contido em poucos dias
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Falso
As fontes examinadas descrevem um ataque à rede do TSE em abril de 2018, detectado pelo próprio tribunal e contido "em poucos dias"; o mês de novembro corresponde à divulgação de dados pelo suposto autor e ao pedido de investigação. Não há, nas fontes, registro de permanência de invasores por oito meses nem de desconhecimento do TSE.
A afirmação
“"E, com todo respeito, 8 meses passeando dentro dos computadores do TSE esse grupo de hackers, será que o TSE não sabia?"”
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichap. 71: "8 meses passeando dentro dos computadores do TSE esse grupo de hackers"
Contexto
No discurso, Jair Bolsonaro baseou-se no inquérito da PF nº 1361/2018, aberto a pedido do TSE em novembro de 2018. Na live de 04/08/2021, ele já havia situado o acesso do hacker "no período de abril a novembro de 2018". A frase sugere que o grupo permaneceu oito meses nos sistemas e que o TSE poderia saber e não agir.
O que foi verificado
O ataque hacker investigado no inquérito nº 1361/2018 manteve invasores dentro dos computadores do TSE por cerca de oito meses em 2018, sem conhecimento do tribunal?
Método
Leitura do exame dos documentos do inquérito feito pelo relator da AIJE 0600814-85 (voto oral, pp. 59–66 e 99–100), que teve acesso à cópia integral dos autos, e da nota do TSE de 05/08/2021. O inquérito está sob sigilo e não foi consultado. Critério: a afirmação é falsa se as fontes indicarem que o ataque foi detectado e contido em prazo muito menor e que o próprio TSE o identificou.
Achados
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE), seguido pela maioria em 30/06/2023
Segundo o voto do relator, o TSE forneceu à Polícia Federal relatórios do rastreamento pelo qual identificou o caminho usado num ataque hacker à rede do tribunal "ocorrido em abril daquele ano e debelado em poucos dias".
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichap. 62, item f): "ocorrido em abril daquele ano e debelado em poucos dias"
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE)
O voto descreve o inquérito como destinado a apurar "um ataque hacker debelado pelo TSE em abril de 2018", instaurado a pedido do tribunal quando o suposto responsável, em novembro, tornou públicos dados que a área de tecnologia do TSE identificou como passíveis de terem sido coletados naquela ocasião. Novembro é, portanto, a data da divulgação dos dados, não do fim do acesso.
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichap. 100: "apurar um ataque hacker debelado pelo TSE em abril de 2018"
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE)
O ataque foi detectado pelo próprio TSE: o voto registra que a apuração da PF se baseou em "detalhado relatório dos ataques detectados pela STI/TSE" e que o tribunal abriu sindicância interna e pediu a investigação em 06/11/2018.
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichapp. 61–63: itens b) e g) e parágrafo "com base no detalhado relatório dos ataques detectados pela STI/TSE"
- Fato documentado
Em nota de 05/08/2021, o TSE afirmou que o episódio de 2018 "foi divulgado à época em veículos de comunicação diversos" e que o próprio tribunal encaminhou à PF as informações necessárias à apuração.
- primáriatse.jus.brfichaitens 1 e 5
Limitações
O inquérito e o laudo pericial da PF estão sob sigilo e não foram consultados; a verificação depende do exame descrito no voto oral do relator (cópia republicada pelo Poder360). O voto oral tem uma inconsistência de data: na p. 63 fala em "ataques detectados pela STI/TSE em abril de 2022", enquanto as pp. 62 e 100 situam o ataque em abril de 2018; a checagem adota 2018, coerente com o restante do voto, com a nota do TSE e com a instauração do inquérito em 2018. O TSE é parte interessada. A fala foi lida na transcrição do TSE; o vídeo original não foi consultado. Não foram consultadas checagens de agências.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Procurada, em 14/10/2026, no voto oral do relator e nas notas do TSE: não foi localizada manifestação de Jair Bolsonaro sobre a duração do acesso. Os argumentos da defesa na AIJE não foram lidos. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.