Checagem · Meio ambiente, desmatamento e povos indígenas · Educação, ciência, cultura e universidades
Em café com correspondentes estrangeiros, em julho de 2019, Jair Bolsonaro disse que os dados de desmatamento do INPE eram "mentirosos"; a taxa anual do PRODES, do próprio INPE, confirmou a alta
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Falso
A afirmação de que os dados do INPE eram mentirosos é contrariada pelos dados. A taxa anual consolidada do PRODES, que usa método e imagens diferentes do DETER, confirmou alta de 34,4% no período que inclui os meses dos alertas e o maior desmatamento desde 2008. Os alertas do DETER continuam mostrando, na série atual, as altas de maio a julho de 2019. A ressalva do INPE sobre o uso do DETER como taxa mensal e a análise do governo de que parte dos alertas de junho correspondia a desmatamento antigo afetam a precisão da comparação mês a mês, não a existência da alta, confirmada pelo PRODES. Esta checagem não atribui intenção ao autor.
A afirmação
“A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos.”
- Jornal de Brasília (com reprodução de entrevista ao O Estado de S. Paulo)ficha§ 4 (fala entre aspas)
Contexto
Em julho de 2019, a imprensa divulgou alertas do DETER que indicavam forte alta do desmatamento em maio, junho e na primeira metade de julho, em relação a 2018. O presidente reagiu dizendo que os dados não condiziam com a realidade.
O que foi verificado
Os dados de desmatamento do INPE divulgados em julho de 2019, que indicavam alta em relação a 2018, foram contrariados por outra medição ou documento, a ponto de serem falsos?
Método
Comparação, nos arquivos de dados oficiais do TerraBrasilis/INPE baixados em 14/10/2026, (1) das áreas mensais de alertas do DETER (classes de desmatamento com solo exposto, com vegetação e mineração, bioma Amazônia) de maio a julho de 2018 e de 2019; (2) da taxa anual consolidada do PRODES (corte raso, Amazônia Legal, agosto a julho) de 2018 e 2019, produto independente do DETER, com imagens de maior resolução. Leitura da contestação apresentada pelo governo em 01/08/2019 e da ressalva metodológica do INPE, segundo a Agência Brasil.
Achados
- Fato documentado
No arquivo atual do DETER, a área de alertas de desmatamento foi de 738,6 km² em maio de 2019 (549,9 km² em maio de 2018, +34%), 934,8 km² em junho de 2019 (488,2 km², +91%) e 2.255,3 km² em julho de 2019 (596,3 km², +278%).
- primáriaTerraBrasilis — DETER (atualizado até 02/10/2026)fichafeatures com y=18/19, m=05/06/07; soma das classes DESMATAMENTO_CR, DESMATAMENTO_VEG e MINERACAO
- Fato documentado
A taxa PRODES de 2019 (agosto de 2018 a julho de 2019) foi de 10.129 km², 34,4% acima da de 2018 (7.536 km²) e a maior desde 2008 (12.911 km²).
- primáriaTerraBrasilis (painel "Taxas de Desmatamento — Amazônia Legal", atualizado em 07/08/2026)fichaperiods com endDate 2008, 2018 e 2019, soma dos nove estados
- Alegação atribuída
Em 01/08/2019, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apresentou imagens de satélite para sustentar que ao menos 31% do desmatamento apontado em junho ocorrera em anos anteriores; o INPE, por sua vez, adverte que o DETER não deve ser entendido como taxa mensal, porque a cobertura de nuvens pode atrasar a detecção, segundo a Agência Brasil.
- Agência Brasilficha§§ 6–9
- Análise editorial
Na fala reproduzida pela imprensa, o presidente não apresentou dado ou documento que mostrasse erro nos números; disse que eles não condiziam com "o nosso sentimento".
Limitações
A fala não foi conferida em gravação. Os valores do DETER são os do arquivo baixado em 14/10/2026 e podem diferir dos divulgados em julho de 2019 (ex.: junho de 2019 = 934,8 km² no arquivo atual; 920,4 km² na divulgação para a Amazônia Legal citada pela Agência Brasil); o arquivo usado é o do painel do bioma Amazônia. A análise de imagens apresentada por Ricardo Salles não foi examinada. "Mentirosos" é qualificação; checou-se o conteúdo verificável: se os dados representavam mal o desmatamento.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Nas fontes consultadas, não foi localizada manifestação de Jair Bolsonaro com dados que demonstrassem a falsidade dos números do INPE. A contestação documentada é a do então ministro Ricardo Salles (01/08/2019), descrita no achado v3. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.